John Ajvide Lindqvist
25/05/2022 - 01/06/2022
Dês de que eu li a série Millennium do escritor sueco Stieg Larsson, a minha expectativa com livros de escritores suecos ficou lá em cima. É fato que a personagem Lisbeth Salander de Larsson é uma das minhas personagens femininas favoritas, me conquistou com sua personalidade única descrita em uma trama de muito suspense e ação e que trata de temas pesados como violência sexual, abuso de autoridade entre outros . Pelos motivos descritos, ao conhecer a temática do livro Deixa ela entrar, do também escritor sueco John Ajvide Lindqvist, minhas expectativas estavam altas, um livro de terror e vampirismo, o tipo de livro que me agrada.
Apesar de ter me chamado a atenção por ser um livro sobre vampirismo, Deixa ela entrar é um livro com o tema de vampirismo que não se trata apenas de vampiro. O autor aborda vários outros assuntos reais de uma forma nua e crua, como bulling, pedofilia, psicopatia, sexualidade etc. O livro mostra varias pessoas problemáticas e mostra como o ser humano é terrível.
Apesar de ter me chamado a atenção por ser um livro sobre vampirismo, Deixa ela entrar é um livro com o tema de vampirismo que não se trata apenas de vampiro. O autor aborda vários outros assuntos reais de uma forma nua e crua, como bulling, pedofilia, psicopatia, sexualidade etc. O livro mostra varias pessoas problemáticas e mostra como o ser humano é terrível.
— Espere. Continue deitado. Posso entrar? Oskar sussurrou:
— Pode…
— Diga que eu posso entrar.
— Você pode entrar
O livro conta a história de Oskar, um adolescente que sofre com
bullying severo na escola, tem uma mente doentia, comete pequenos
delitos. Sua vida muda quando conhece sua vizinha Eli, uma adolescente
com mais de duzentos anos, uma vampira.
O livro inicia com uma cena brutal de assassinato logo nas primeiras paginas, e varias outras cenas brutais serão lidas no decorrer do livro, porem não espere ler aquele terror clássico que é esperado quando falamos de vampirismo. Em minha opinião esta mais para um romance policial do que para terror.
“Ou parto e vivo, ou morrerei ficando. da sua Eli.”Para quem assistiu o filme, apesar de ser um filme muito bom, principalmente o filme sueco. Existe um detalhe que traz uma interpretação totalmente diferente. No filme sueco não fica muito claro a relação de Eli com o coroa que vive com ela, no filme americano é revelado uma foto de Eli com o coroa quando ele ainda era garoto, o que leva a pensar que Eli precisa de um servo e que possivelmente ela quer substituir o coroa por Oskar.
Já no livro fica claro que Eli não tem interesse em Oskar como um servo, alem de revelar que o coroa esta com ela a pouco tempo, ele esta ajudando-a enquanto ela recupera suas forças, e ele faz isso por seus próprios interesses doentios como um pedófilo pervertido.
Enquanto o filme pode levar a uma interpretação de que ela seja uma vilã e que esta manipulando o garoto para que ele se torne seu subalterno, no livro é esclarecido que apesar de ter vivido por muitos anos ela tem apenas doze anos, ou seja, pensa como um adolescente de doze anos. Existe uma relação real e não apenas interesses por sobrevivência.
Apesar de muitos leitores terem uma opinião diferente, a minha interpretação é que existia uma relação de afeto entre os personagens, mesmo que ao deixar as emoções de lado tudo isso parece algo doentio.
O que dava medo nele não era o fato de que ela talvez fosse uma criatura que se alimentava do sangue das pessoas. Mas era a possibilidade de que ela fosse rejeitá-lo.
Gostei da forma que o autor trabalha com o vampirismo, não se trata de uma criatura com poderes sobre-humanos, aristocratas ou sedutores que brilham no escuro. O autor apresenta o vampirismo como uma forma de contaminação, um parasita ou simbiose com vontades e consciência própria e que permanecera vivo assumindo o controle do corpo do indivíduo mesmo que a pessoa morra. A coisa também possui um centro nervoso que se forma junto ao coração, por isso uma boa estaca no peito pode ser o fim da criatura.
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Eli é uma vampira, tem cerca de 220 anos, porem entende-se que ela passa por longos períodos de hibernação:
Eli é uma vampira, tem cerca de 220 anos, porem entende-se que ela passa por longos períodos de hibernação:
— Bem, é que… você sabe… você já morreu alguma vez?— Não. Mas já faz muito tempo que estou viva.— Você é velha?— Não. Tenho doze anos. Mas faz tempo que estou com essa idade.
O livro retrata o vampiro de uma forma mais realista, até que a própria personagem não se considera uma vampira, como se fosse a criatura que originou o mito. Portando apesar de muitas cenas fortes, não é como se fosse um livro de terror, mas o drama de uma criatura sujeita a ter que alimentar-se de sangue humano para sobreviver.
— Você é um vampiro? Ela passou os braços em volta do corpo e sacudiu devagar a cabeça.— Eu… me alimento de sangue. Mas eu não sou… isso aí.
— Oskar. Eu sou um ser humano, igualzinho a você. Pense só que eu… tenho uma doença muito rara.
Eli na verdade era um menino que foi castrado pelo ser que a contaminou. No livro era aparenta ter um visual andrógeno.
Oskar se lembrou de que estava errado. Foi a última coisa que ela dissera quando estavam deitados no sofá. Que ela na verdade se chamava… Elias. Elias. Um nome de menino. Será que Eli era um menino? Mas eles tinham… se beijado e dormido na mesma cama e…
O livro trabalha com esta questão de sexualidade, primeiro pelo Oskar ter que lidar com a homossexualidade do pai, e então ele descobre gostar de um ser que não é uma garota
Ficou pensando. Pensando intensamente. E não entendeu. O fato de ele poder aceitar de alguma forma que Eli era um vampiro, mas o fato de ser mais… difícil de aceitar que ela era um menino.
O vampirismo em Deixa ela entrar é tratado como uma contaminação, uma espécie de simbiose que possui consciência própria e até um órgão próprio que funciona como um cérebro.
Pois o que ela vira naquele instante é que a contaminação tinha uma vida própria, uma força motriz própria, totalmente independente do seu corpo. Que a contaminação podia viver, mesmo que ela não vivesse. A mãe morreria com o choque do ultrassom, mas ninguém notaria nada, já que a cobra começaria, em vez dela, a controlar o corpo.
— Foi aquela criança. Fui contaminada. E depois… não parou de crescer. Eu sei onde está. No coração. No coração todo. Como um câncer. Está fora do meu controle.
A pessoa contaminada quando morre, parece se tornar uma coisa diferente totalmente controlada, como se fosse um zumbi.
Mortos-vivos. Eli não sabia nada sobre eles. Não sabia se o ser à sua frente era movido pelas mesmas limitações que ele próprio tinha. Nem sequer sabia se adiantava destruir o coração. De qualquer jeito, o fato de Håkan estar parado na porta indicava que ele precisava ser convidado.
Eli parece realmente gostar de Oskar, tanto que ela tenta adquirir sangue sem precisar matar, apenas um gesto, pois para Eli matar é uma questão de sobrevivência e Oskar só vai precisar se acostumar com a ideia, pois parece ter um tendência assassina.
— E o que você quer comprar? Por esse valor você pode comprar…
— Sangue.
No inicio eu pensava que Eli precisava de um servo, apenas alguém para ajuda-la, nos dois filmes isso parece ser fato, porem no livro Eli até se oferece a transformar Oskar caso ele queira, pelo menos foi o que eu entendi nas entrelinhas
— Você gostaria de… virar o que eu sou?
Por fim até Oskar que tem sérios problemas de auto-estima, entendeu que Eli o via como alguém especial.
Durante alguns segundos, Oskar viu o que havia dentro dos olhos de Eli. E o que viu foi… ele mesmo. Só que muito mais bacana, mais bonito, mais forte do que ele mesmo achava que era. Visto com amor.
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Apesar de racionalizar sobre a questão do vampirismo, a criatura da obra de John Ajvide também possui o seu lado fantástico. Isso fica evidente com o próprio nome da obra, o titulo Deixa ela entrar diz respeito ao mito do vampiro que necessita ser convidado para poder entrar em uma casa, e não existe uma explicação racional para isso, o próprio personagem Oskar questiona sobre o porque Eli precisa ser convidada, ela não sabe a resposta, apenas demonstra o que acontece se entrar sem ser convidada. Outra questão interessante é que Eli consegue transmitir as suas próprias memórias para Oskar, o que demonstra uma capacidade telepática.
Para mim Deixa ela entrar é um livro sobre vampiros que diz respeito a questões humanas mais do que qualquer outra coisa.
